#floresnaestrada / O super-herói de caminhão!
- Flávio Santos
- 5 de nov. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2020

Esse senhor da foto é um homem brasileiro de Uruguaiana, casado há mais de 20 anos e pai de dois filhos. Sua profissão de caminhoneiro é algo de família. Logo cedo seu pai ensinou como pilotar as máquinas e ele faz isso até os dias de hoje.
Conheci o Estevão em uma das BRs do Rio Grande do Sul logo depois de um dia extremamente cansativo ao sol na tentativa de chegar de Porto Alegre a Uruguaiana. Eu já havia desistido e pretendia passar a noite por ali mesmo onde eu estava, há mais de três horas parado no mesmo cruzamento e nenhum sinal de que alguém fosse parar para me levar. Por isso quando encontrei ele, eu estava no pátio do posto de gasolina, deitado ao lado das minhas mochilas e imaginando qual seria o melhor lugar para montar a barraca.
Só percebi que tinha sido notado quando voltando da conveniência ele fez sinal para que eu o acompanhasse. Sem entender muito o que acontecia, levantei e o cumprimentei: "Opa! Tudo bem?". Em resposta ele me olhou e perguntou: "Quer ir para Uruguaiana, menino?", apontando para a plaquinha largada no chão ao meu lado.

Estevão tem deficiência, seu braço direito é um pouco menor que o esquerdo e era esse braço que ele usava para carregar o mate. Uma pessoa de bondade infinita que era possível de identificar nos olhos e na maneira simples que falava.
_ Sim! Na realidade estou indo para Buenos Aires, mas chegando na fronteira já vai ser sucesso demais. Você pode me dar uma carona?
Perguntei.
Abriu as portas do seu caminhão e do seu coração. Me contou sobre sua vida, suas angústias e como era o relacionamento com a família porque passava a maior parte do tempo na estrada. Como só estudou até a terceira série, ser caminhoneiro foi a solução para ele ter condições de levar educação para seus filhos. Muitas vezes, na volta de suas viagens, ele me disse que fazia questão de levar algum presente para os meninos a fim de compensar a falta que fazia em casa.
_ Nunca foi fácil, mas sou consciente de que não tenho como mudar minha fonte de renda se quero dar um futuro aos que amo.
Perguntei qual era seu sonho, ele respondeu:
_ Ah, meu sonho? Rapaz, sabe que eu nunca pensei nisso, mas eu adoraria ir aos EUA para ver como é o trânsito lá, as ruas e os caminhões".
A viagem foi de uma tranquilidade sem fim e o mate foi nosso mais fiel companheiro.

Depois de algum tempo juntos e quando já estávamos chegando em Uruguaiana, ele disse que sua carga iria até Buenos Aieres e que se eu quisesse eu poderia ir com ele, mas teria que esperar a liberação da alfândega.
Como ele era de Uruguaiana, naquela noite ele iria para casa. Me perguntou onde eu dormiria e eu pedi para que ele me deixasse em algum posto de gasolina 24 horas que eu acamparia ao lado e esperaria ele voltar.
_ De jeito nenhum! Cê tá doido? Estamos na fronteira, aqui é muito perigoso. Vamos fazer o seguinte, eu vou deixar meu caminhão dormindo em um estacionamento e te deixo com as chaves, você pode dormir aqui dentro. Olha aqui, tem uma cama bem confortável atrás do nosso banco. Amanhã cedo seguimos para a tirar a documentação e eu te deixo no posto de inspeção. Se você achar uma carona mais rápido você pega, se não quando ficar tudo pronto e o caminhão estiver liberado, eu volto e vamos juntos para a Argentina.

Acabei não conseguindo nenhuma outra carona e no fim do dia seguinte Estevão voltou para que continuássemos nossa viagem até a capital argentina.
Eu sentia que tinha feito um novo amigo de verdade. E me orgulhava da sua resiliência com a vida. Aquele era seu roteiro de viagem e fazia isso toda a semana. Trabalha incansavelmente do Brasil a Argentina, enfrentando filas, burocracia e nunca em nenhum momento estressado ou bravo pelas inevitáveis situações do dia a dia. Bem pelo contrário, com o sorriso no rosto, sempre indo 'de boa tchê' e oferecendo seu mate aos viajantes.

Via essa garra toda que ele transmitia como o super-poder de um super-herói. Não existem pessoas comuns, todos estamos vivendo a jornada humana e temos nossas guerras para travar. Como reagiamos a ela é o que nos torna diferentes. Estevão reagia com um sorriso de gentileza e cuidado com o próximo inspirando cada um que passava em sua vida. A paz em meio ao caos.
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#floresnaestrada é uma sequência de contos de viagem focados na bondade vivida em situações de vulnerabilidade na estrada. Onde muitas vezes é esperado a maldade, deixe seu coração aberto e se entregue ao universo, o resultado sempre é amor.
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